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Esperar não era mais uma opção!

A transformação da Disney não é um bom presságio para seus concorrentes

Disney+: plataforma deve ocupar a segunda posição no País. Crédito: Reprodução.

 

Nestes últimos meses o que mais se ouviu no mercado de entretenimento foi sobre as mudanças da gigantesca Walt Disney Company. Da mesma maneira que a Covid-19 antecipou diversos comportamentos de consumo em 7 ou até 10 anos, de acordo com especialistas, a empresa entendeu que mudar o olhar era fundamental para a continuação dos negócios. O que vimos foram transformações ágeis que asseguram a confiança dos acionistas e insere o consumidor como protagonista do “show”.

Abaixo trechos do artigo de Hamza Mudassir, pesquisador de estratégia na Cambridge Judge Business School. 

A Disney anunciou uma reestruturação significativa de seu negócio de mídia e entretenimento, colocando de maneira ousada a maior parte de suas ambições de crescimento e investimentos no serviço de streaming recém-lançado, Disney Plus. O conglomerado de mídia de 97 anos está mais parecido com o Netflix do que nunca.

O que isso significa é que a Disney reduzirá seu foco em (e potencialmente os investimentos direcionados a) parques temáticos, cruzeiros, lançamentos de cinema e TV a cabo, de acordo com o CEO Bob Chapek disse: “Devido ao incrível sucesso da Disney + e nossos planos para acelerar negócios diretos ao consumidor, estamos posicionando estrategicamente a empresa para apoiar de forma mais eficaz essa estratégia de crescimento e aumentar o valor para os acionistas”.

Essa mudança não veio facilmente, já que a sorte da empresa passou por uma montanha-russa em 2020. Entre seu portfólio de negócios, Disney Plus é o único vencedor claro, com o serviço conquistando mais de 60,5 milhões de membros em apenas 10 meses desde o lançamento. A pandemia, por outro lado, destruiu os negócios de cruzeiros, parques temáticos, esportes ao vivo, cinema e varejo da Disney, resultando em perdas de mais de US $ 4,7 bilhões no trimestre financeiro encerrado em 27 de junho deste ano.

UMA MUDANÇA RÁPIDA

Do ponto de vista da estratégia corporativa, o movimento é notável em duas frentes. Em primeiro lugar, a velocidade desse pivô para uma empresa do tamanho e da idade da Disney, que é sem precedentes.

Foi apenas no ano passado que a Disney deteve cerca de 40% das receitas de bilheteria dos Estados Unidos, graças aos filmes da Marvel. Os negócios de parques temáticos e cruzeiros da empresa foram igualmente bem-sucedidos, com uma taxa de crescimento anual de ​​6% e receitas de $ 26,2 bilhões no mesmo período.

O fato de que, em apenas sete meses após o início da pandemia, a Disney decidiu se reinventar principalmente em torno do streaming diz muito sobre suas expectativas em relação à duração da pandemia. Claramente, o grupo decidiu que esperar não era mais uma opção.

EFEITOS COLATERAIS

A segunda razão pela qual esse pivô é notável é que provavelmente terá um longo alcance e não se limitará apenas à indústria de streaming. A transformação da Disney não é um bom presságio para seus concorrentes menos diversificados, como o Universal Studios, o grupo de parques temáticos Six Flags e o grupo de cruzeiros Royal Caribbean.

Um Disney Plus mais bem financiado que está disposto a transmitir lançamentos teatrais antecipados também terá um forte impacto na capacidade das cadeias de cinema de se recuperar quando a pandemia diminuir. A Disney já decidiu lançar não apenas Mulan, mas também sua mais nova animação da Pixar, Soul, por meio do streaming.

As empresas tradicionais de TV a cabo e linear provavelmente sentirão mais pressão, pois mais assinaturas de streaming podem gerar um número maior de pacotes cancelados de TV a cabo, bem como anunciantes desinteressados, que continuarão a reduzir seus gastos com publicidade na TV linear graças à menor audiência e engajamento.

Já para as empresas de cruzeiros e viagens, como a Royal Caribbean, a mudança da Disney sugere uma retração mais longa e profunda para o setor. E, ao contrário da Disney, a maioria desses participantes é simplesmente muito especializada e investida em seus setores para ser capaz de criar seus próprios eixos ousados ​​e oportunos. Não seria surpreendente ver pelo menos alguns deles entrando em buscas agressivas de aquisições e desinvestimentos para comprar sua saída da situação atual.

Dando um passo para trás, a urgência da Disney em mudar a si mesma é um alerta para os líderes empresariais de todos os lugares que estão esperando que os efeitos do COVID-19 desapareçam. Mesmo para setores aparentemente não relacionados, como construção ou mesmo energia, o que está escrito na parede é claro: ousadamente transforme-se em negócios que priorizam o digital ou torne-se obsoleto. Isso inclui o investimento em robótica e IA para operações centrais e modelos de negócios em mudança que permitam mais acessibilidade aos clientes durante uma recessão global.

Disney+: plataforma deve ocupar a segunda posição no País

Consultores e analistas do mercado consultados pelo jornal O Estado de S. Paulo afirmam que a chegada da nova plataforma será positiva para o consumidor, e apostam que o serviço vai ocupar, rapidamente, o segundo lugar de assinaturas entre os disponíveis no País, ficando atrás apenas da líder no segmento, a Netflix.

Com uma estratégia um tanto agressiva de retirar o conteúdo próprio – e da Marvel, Pixar, Star Wars e National Geographic – de todas as outras plataformas de streaming, a Disney tem um ponto de partida mais favorável que as outras concorrentes justamente por já ter um catálogo robusto e amplamente conhecido. Novos lançamentos de cinema também já estão planejados para a plataforma – o inédito Mulan, por exemplo, estreia por aqui diretamente na plataforma no dia 4 de dezembro.

O presidente da Disney para a América Latina, Diego Lerner, já afirmou que o conteúdo local – séries e filmes, será produzido com atores e diretores brasileiros. O que é uma notícia animadora para o mercado audiovisual nacional.

“Há muitas conversas nesse sentido porque o mercado deu uma parada com o Fundo Setorial do Audiovisual e a Ancine travou as verbas”, explica a CEO e fundadora do grupo Stenna, Carolina Vargas, há 15 anos trabalhando com produtoras e distribuidoras de conteúdo de entretenimento. “A Disney não precisa de Fundo Setorial para levantar produções originais. Mesmo assim, vai levar uns dois anos para conteúdos locais novos chegarem à plataforma. Assim, vejo um crescimento grande no lançamento, mas não sei se sustenta a subida crescente que eles estão planejando.”

A subida crescente se refere à grande adesão que a plataforma da Disney teve nos Estados Unidos e em outros 28 países. Em menos de um ano, já são 60 milhões de assinantes, segundo a empresa – para comparação, a Netflix possui cerca de 190 milhões em 190 países.

E o acesso à tecnologia?

 A visão de Lerner concorda com a de analistas que afirmam que o brasileiro tem uma alta adesão à tecnologia, mesmo tendo saído atrás de países mais desenvolvidos, como os Estados Unidos e os países da Oceania

“Tecnologicamente, o Brasil é um dos públicos que mais tem aderência ao consumo de conteúdo”, explica a consultora estratégica de entretenimento e conteúdo Patricia Weiss, há 20 anos envolvida na discussão. “Não importa se vai acumular uma série de assinaturas. Quem tem o mínimo de poder aquisitivo, vai assinar. O consumidor brasileiro vai pagar ainda menos do que com a TV a cabo, que ainda é muito cara. Daí o movimento nos últimos anos de transferência de conteúdo para as plataformas digitais.”

Carolina, porém, se diz preocupada com a entrega do produto ao cliente final, uma questão com que a Netflix, por exemplo, lida há quase 10 anos no Brasil. “Para entregar o conteúdo regional, fora dos grandes centros, é necessário um fluxo de internet considerável. Alguns serviços já em atuação, por exemplo, não funcionam direito no Nordeste. A Disney vai precisar desse fluxo. Quem entrega é o provedor regional, que são concorrentes diretos das plataformas, porque vendem conteúdo de programação para a região. O que eles fazem então? Eles bloqueiam o tráfego de outras plataformas.”

Para ela, a experiência final do consumidor vai ser diferente em cada região. “Os serviços regionais estão crescendo. São mais de mil cidades em que as grandes operadoras de internet compram ou alugam banda dos provedores locais, que por sua vez, quando juntos, detêm uma participação de mercado que chegou a quase 40% em agosto, incomodando as grandes.”

A relação custo-benefício da qualidade de internet é outra questão, aponta Patrícia. Em comparação a outros mercados, o tráfego de dados ainda é muito caro no País. “O Brasil apresenta qualidade de tecnologia diante de muito dinheiro do consumidor. Acredito muito que o Brasil precisa evoluir nessa relação de custo-benefício. Quanto mais empresas como a Disney em atuação, melhor para o brasileiro. Porque essa presença também desenvolve critérios no mercado e no consumidor. Se cada vez mais ele vê coisas diferentes, cada vez mais ele vai escolher melhor.”

Que catálogo!

A força da marca Disney também é um trunfo em relação aos concorrentes, até porque são décadas e décadas de construção de imagens, conteúdos, entretenimento dentro e fora dos cinemas e das telas. Mesmo assim, a concorrência, puxada pela Netflix, antecipou o momento em que as grandes empresas, como a Disney (mas também a Warner, por exemplo), ofereceriam suas plataformas próprias de streaming, e passou a investir pesado em produção própria. Muitas das melhores séries contemporâneas são produzidas diretamente para a internet, como Fleabag (Amazon), The Crown (Netflix), The Morning Show (Apple TV+) e outras. Esse movimento suaviza o impacto da retirada de conteúdos, segundo fontes.

“Quem mais sofre ameaça no momento é a TV por assinatura, porque olhando para o preço, não dá para comparar”, explica Patrícia. “O consumidor não necessariamente vai escolher entre uma plataforma e outra. O mercado de consumo de conteúdo em vídeo, mesmo que de baixa qualidade, é muito grande. O brasileiro vai adquirir.”

Para Carolina Vargas, do grupo Stenna, outras plataformas, especialmente a Netflix, têm uma atualização de conteúdo mais frequente que a Disney, o que pode ser um diferencial na concorrência. “A Disney tem o mesmo conteúdo há tantos anos. Qual é o ‘refresh’? São conteúdos maravilhosos, mas caríssimos… Star Wars já deu… vai ter lá também, claro, mas e aí? Fora os fãs eufóricos, em outra ponta. Pelo nosso trabalho que vem de tempos com a Ancine e as TVs por assinatura contra pirataria, acredito que a massa do consumidor brasileiro não vai pagar por outra plataforma.”

A própria Netflix, porém, admite a concorrência pesada que já existe (nos EUA) e que vem por aí. Em uma entrevista recente ao The Hollywood Reporter, o co-CEO Reed Hastings disse que a empresa quer bater a Disney em animações para a família. “Isso vai demorar um pouco”, afirmou.

Concorrência que fala?

Para Rafael Pallarés, do IAB Brasil e da Magnite (plataforma global de tecnologia que facilita a venda de publicidade digital em diversos meios), o que é inexorável é a migração para o ambiente do streaming. “Isso afeta todas as gerações, é uma tendência de consumo não só de conteúdo por demanda, mas existe também uma procura pelo ao vivo.”

“Além disso, o Disney+ tem uma referência no streaming que é a trajetória da Netflix. Na Disney, o DNA do negócio não é só diversão, mas entretenimento em geral. Quem inventou o primeiro case de entretenimento de marca de sucesso foi ele. Já a HBO explicou ao mundo o que deveria ser a TV, em questão de linguagem. A melhor experiência de consumo, não importa o gênero, ainda é a Apple. O Prime Video, percebemos que ainda tem o que evoluir. Ainda não parece ser da Amazon, até na combustão de produção de conteúdo, relativamente lenta.”

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Fonte: releitura de informações da istoé e jornal O Estado de S. Paulo.

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